"O material da vida não é a estabilidade e a harmonia quieta, mas a luta permanente entre os contrários."
Yussof Murad |
Ciclo vital e Mudança Associada
Na abordagem à família, dois aspectos foram intensamente estudados:
- A evolução da família ao longo dos anos caracterizada por vários estádios.
- A forma como a família gere a mudança dum estádios para o outro.
Intuitivamente, todos nós temos a sensibilidade necessária para definir os diferentes estádios pelos quais um casal passe a partir do momento em que assume o compromisso de viver junto, seja esse compromisso selado pelo casamento ou não.
No entanto, encontraremos de forma sistematizada esses diferentes estádios no seguinte quadro com a respectiva definição.
| 1. Casal sem filhos |
Estabelecimento de uma relação conjugal mutuamente satisfatória; preparação para a gravidez e para a parentalidade |
| 2. Famílias com récem-nascido |
Ajustamento à exigências de desenvolvimento de uma criança dependente |
| 3. Famílias com crianças em idade pré-escolar |
Adaptação às necessidades e interesses das crianças no sentido da sua estimulação e promoção do desenvolvimento |
| 4. Famílias com crianças em idade escolar |
Assumir responsabilidades com crianças em meio escolar; relacionamento com outras famílias na mesma fase. |
| 5. Famílias com filhos adolescentes |
Facilitar o equilíbrio entre liberdade e responsabilidade; partilha desta tarefa com a comunidade; estabelecimento de interesses pós-parentais. |
| 6. Famílias com jovens adultos (Saída do 1º filho - Saída do último filho) |
Permitir a separação e o "lançamento" dos filhos no interior, com rituais e assistência adequada (1º emprego ou educação superior); manutenção de uma base de suporte familiar. |
| 7. Casal na meia-idade ("Ninho-Vazio") |
Reconstrução da relação de casal; redefinição das relações com as gerações mais velhas e mais novas. |
| 8. Envelhecimento |
Ajustamento à reforma; aprender a lidar com as perdas (lutos) e a viver sozinha; adaptação ao envelhecimento |
* In Ana Paula Relvas. O ciclo Vital da Família. Perspectiva Sistémica. Biblioteca das Ciências do Homem. Edições Afrontamento. 2ª Edição. Maio de 2000
É de salientar que não estão aqui representadas as famílias monoparentais e reconstituídas devido à separação, ao divorcio ou a morte de um conjugue, cujos estádios serão obviamente mais complexos.
Mas para além da simples definição dos estádios, temos de perceber os mecanismos psicológicos mediante a mudança que implica a transição dum estádio para o outro:
| Estádio |
Processo emocional de transição |
Mudanças de 2ª ordem necessárias ao processo de desenvolvimento |
| 1. Entre famílias: o jovem adulto independente |
Aceitação da separação pais-filhos |
- Diferenciação do self em relação à família de origem
- Desenvolvimento de relações íntimas com um parceiro
- Estabelecimento de uma identidade no mundo laboral
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| 2. Junção de famílias pelo casamento: o novo casal |
Compromisso com o novo sistema |
- Formação do novo sistema conjugal
- Realinhamento das relações com as famílias de origem e os amigos de modo a incluir o conjugue
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| 3. Famílias com filhos pequenos |
Aceitação no sistema dos membros da nova geração |
- Ajustamento do subsistema conjugal: criar espaço para o(s) filho(s)
- Assumir papéis parentais
- Realinhamento das relações com as famílias de origem a fim de nelas incluir os papéis parentais e os avós
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| 4. Famílias com adolescentes |
Flexibilidade dos limites familiares de modo a aceitar a independência |
- Mudança nas relações pais-filhos; possibilitar aos filhos as entradas e saídas no sistema
- Recentração nos aspectos da vida conjugal da meia-idade e das carreiras profissionais
- Inicio da função de suporte à geração mais velha
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| 5. Saída dos filhos |
Aceitação de múltiplas entradas e saídas no sistema |
- Renegociação do subsistema conjugal como díade
- Desenvolvimento de relações adulto-adulto entre os jovens e os pais
- Realinhamento de relações para incluir os parentes por afinidade e os netos
- Necessidade de lidar com as incapacidades e morte dos pais (avós)
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| 6. Última fase da vida da família |
Aceitação da mudança dos papeis geracionais |
- Manutenção de interesses, próprios e/ou de casal; exploração de novas opções familiares
- Papel de destaque da geração intermédia (filhos)
- Aceitação da experiencia e sabedoria dos mais velhos; suporte da geração mais velha sem super-protecção
- Aceitação da perda do conjugue, irmãos e outros da mesma geração; preparação para a morte; revisão e integração da própria vida.
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* In Ana Paula Relvas. O ciclo Vital da Família. Perspectiva Sistémica. Biblioteca das Ciências do Homem. Edições Afrontamento. 2ª Edição. Maio de 2000
Obviamente, não temos a mesma capacidade para lidar com estas mudanças que requerem flexibilidade psicológica.
Gerir a Mudança e/ou a crise
Gestão da Mudança: Processo Psicológico
- Negação da situação para evitar de sofrer
- Resistir para evitar os efeitos da mudança
- Considerar a mudança sob outra perspectiva
- Resignar-se
- Aceitação e criar um presente satisfatório
O maior obstáculo à mudança é o habituo, de facto as pessoas receiam quando os acontecimentos fogem ao seu controlo, medo do que poderá surgir a seguir, o que pode levar a uma ruptura psicológica e proporcionar uma situação de crise.
Para o autor, Dr. Guy Ausloos, a crise define-se como "a situação de uma pessoa ou dum sistema vivo quando uma mudança é inevitável", definição que se enquadra no modelo sistémico.
Segundo este autor, vivenciamos as crises focando-nos unicamente nos aspectos negativos, esquecendo-nos das oportunidades que podem surgir e sugere as seguintes etapas para gerir uma situação de mudança, evitando assim uma ruptura ou crise:
- Ver a oportunidade: mudar a forma como nos representamos a crise
- Dar se tempo: a crise está muitas vezes associada o sentimento de emergência, ora a precipitação leva as escolhas erradas
- Aceitar o côas: Lidar com o incomodo associado
- Não procurar responsáveis: é perca de tempo e de energia
- Não acreditar em soluções milagrosas
- Aceitar de perder
- Aceitar que nada será como antes
- Ver as hipóteses
Estas sugestões aplicam-se perante as transições necessárias para a família conseguir lidar com a mudança duma etapa para a outra, mas também em situações de stress, aumento do volume de trabalho, o desemprego, uma separação, mudança de emprego, de casa…. Qualquer mudança que possa surgir na nossa vida até mesmo uma doença.
Como gerir o stress familiar perante a doença afectiva
Quando diagnosticado uma doença afectiva, o impacto na família vai depender em que estádio do ciclo vital o doente se encontra.
As regras familiares vão sofrer alterações, para além do ambiente do lar tender a fortes tensões e conflitos.
Efectivamente, muitas vezes existe uma troca dos papéis, por exemplo um filho ter que assumir mais responsabilidade devido ao internamento dum dos pais.
Da mesma forma, um adolescente ou um jovem adulto que sofre de perturbação do humor, poderá verificar uma super-protecção por parte dos pais e mesmo dos irmãos.
Todos os membros da família terão de aprender:
- Aceitar a doença
- Reconhecer os seus sintomas para prevenir futuras recaídas
- Diferenciar a personalidade do doente dos sintomas da doença
- Participar no tratamento (acompanhando o doente ao medico)
- Ter a flexibilidade para após ultrapassado o episódio de crise, cada um voltar a assumir os seus papéis na família
Todavia muitas famílias têm dificuldades em ultrapassar estas diferentes fases, é aconselhado nesses casos apoio técnico especializado em apoio individual, em grupo e/ou em sessões psicoeducativas.
Poderá se assim evitar o isolamento das famílias, o estigma associado com a doença, a culpabilização do doente e conflitos familiares que irá prejudicar a evolução da doença.
Dr.ª Lídia Águeda
Psicóloga da Delegação Norte da ADEB
Bibliografia: Ana Paula Relvas. O ciclo Vital da Família. Perspectiva Sistémica. Biblioteca das Ciências do Homem. Edições Afrontamento. 2ª Edição. Maio de 2000.Guy Ausloos. La Crise: accident ou occasion, une vision systémique in http://www.sptf.pt/m1/1212772578criseguy.pdfFrancis Mark Mondimore. Perturbação Bipolar. Guia para Doentes e suas Famílias. Climepsi Editores. 1ª Edição, Lisboa, Novembro de 2003.Rif S. El-Mallakh; S. Nassir Ghaemi. Depressão Bipolar. Um Guia Abrangente. Artmed Editora, 2006.Steven Jones; Peter Hayward, Dominic Lam. Como lidar com a Doença bipolar. Um guia para viver com a depressão maníaca. Plátano Editora. Maio de 2008
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